Como Funciona um PIX do IX.br: Os Endereços Físicos da Internet Brasileira

O que é um PIX do IX.br, como funciona a malha de troca de tráfego de São Paulo e o passo a passo para o provedor se conectar, contado por quem opera o IX.br.

Por Fausto Morales

Como Funciona um PIX do IX.br: Os Endereços Físicos da Internet Brasileira

Como Funciona um PIX do IX.br: Os Endereços Físicos da Internet Brasileira

No dia em que o tráfego da internet brasileira bateu recorde, a maior parte dele não atravessou oceanos nem passou por grandes operadoras: foi trocada dentro de salas de data center espalhadas por São Paulo, os PIX do IX.br. Um engenheiro do NIC.br explica como essa malha funciona, e o que um provedor precisa fazer para entrar nela.

Em 25 de junho de 2026, um dia com seis jogos da Copa do Mundo transmitidos por streaming, o sistema de pontos de troca de tráfego IX.br atingiu um pico de 55 terabits por segundo, o maior da sua história. Só a localidade de São Paulo respondeu por 35,9 Tbps desse total, segundo números divulgados pelo NIC.br e publicados pela imprensa especializada. Para dar uma ideia da escala, 1 terabit por segundo equivale a mil links de 1 gigabit trabalhando ao mesmo tempo, no limite. Na hora do pico, São Paulo movimentava o equivalente a quase 36 mil deles.

Quem assistiu a um desses jogos no celular dificilmente imaginou que o vídeo viajou poucos quilômetros. É justamente essa a função de um ponto de troca de tráfego: fazer com que o conteúdo encontre o assinante pelo caminho mais curto, sem dar a volta por redes de terceiros, às vezes fisicamente distantes. E esse encontro acontece em lugares concretos, com endereço, porta e controle de acesso. São os PIX, os pontos de interconexão do IX.br.

Em 2023, o Data Center ASAP, em São Paulo, passou a ser um deles. Na ocasião, Talisson, do canal Loucos da Telecom, recebeu, no Data Center ASAP, Salvador, engenheiro da equipe do IX.br no NIC.br, onde trabalha há mais de uma década com os sistemas de transmissão óptica que sustentam a malha. A conversa, gravada ao lado do rack do IX.br, virou uma das explicações mais completas sobre o assunto em português, e é a base deste artigo.

De PTT a IX.br: Duas Décadas de Troca de Tráfego

A história dos pontos de troca de tráfego no Brasil começou no meio acadêmico. O primeiro deles era operado pela Fapesp, a fundação de amparo à pesquisa do estado de São Paulo, desde 1998. Em julho de 2004, o Comitê Gestor da Internet no Brasil, o CGI.br, aprovou o projeto PTTMetro, que organizou a troca de tráfego em regiões metropolitanas, começando pela de São Paulo. A operação ficou a cargo do NIC.br, a entidade sem fins lucrativos que também cuida do registro de domínios ".br" e da distribuição de endereços IP no país.

Por mais de uma década, o nome do projeto foi PTT, sigla de Ponto de Troca de Tráfego. Em 2015, ele passou a se chamar IX.br. Salvador explica o motivo: no resto do mundo, um ponto de troca de tráfego é chamado de Internet Exchange, ou IX, e o Brasil era diferente apenas no nome. A sigla nova junta o termo internacional com o domínio brasileiro. A palavra PTT, porém, durou tanto tempo que ainda aparece em apresentações oficiais ao lado da atual, como "IX.br/PTT.br", para que ninguém se perca.

Hoje o IX.br é um dos maiores sistemas de troca de tráfego do planeta. Reúne cerca de 3,8 mil Sistemas Autônomos e aproximadamente 7 mil interligações entre redes. Em setembro de 2026, com a inauguração do ponto do Amapá, o 40º do projeto, passou a estar presente em todos os estados brasileiros.

O Que é um IX, e Por Que Ele Existe

Imagine dois vizinhos de rua que precisam trocar correspondência, mas cada um usa uma transportadora diferente, e as duas só se encontram num centro de distribuição em outra cidade. A carta atravessa a rua dando uma volta de centenas de quilômetros. Na internet acontece algo parecido: sem um ponto de troca, o tráfego entre duas redes da mesma cidade pode subir até uma operadora de trânsito, percorrer o backbone dela e só então descer até o destino.

Um IX resolve isso colocando as redes lado a lado. Cada participante, seja um provedor de acesso, uma plataforma de conteúdo, uma rede de distribuição de conteúdo, uma universidade ou um órgão de governo, liga seu roteador a uma estrutura comum e passa a trocar tráfego diretamente com os demais, por meio de sessões BGP, o protocolo que as redes usam para anunciar umas às outras quais endereços sabem alcançar. Quando a troca é feita com todos de uma vez, pelos servidores de rotas do IX.br, ela se chama multilateral. Quando dois participantes combinam uma sessão só entre eles, é bilateral.

Quem participa ganha em qualidade, porque o tráfego dá menos saltos até o destino, e em resiliência, porque passa a ter mais de um caminho. Salvador cita uma estimativa usada pela equipe do IX.br: cerca de 70% de todo o conteúdo consumido na internet está presente dentro do IX. Para um provedor regional, isso significa encontrar boa parte do que seus assinantes assistem, ouvem e baixam a poucos quilômetros de distância.

IX, PIX, Central e Remoto

Aqui mora a confusão mais comum, e a pergunta que Talisson fez logo no início da conversa: qual a diferença entre IX e PIX?

O IX é o conjunto, a malha metropolitana inteira. O PIX, ou Ponto de Interconexão, é cada um dos locais físicos onde essa malha está presente: data centers e operadoras que funcionam como portas de entrada para o IX.br. Em São Paulo, a malha tem uma topologia em estrela. No centro estão dois PIX centrais, mantidos pelo próprio NIC.br. O original fica na Avenida das Nações Unidas e, até por volta de 2014, era o único. Por uma questão de redundância, um segundo ponto central foi criado num data center na Avenida João Dias. Ao redor deles estão os PIX remotos, ligados aos centrais por fibra óptica. O Data Center ASAP é um PIX remoto.

:::Não importa em qual PIX o provedor se conecta: todos os PIX de uma localidade formam uma única malha, e quem entra por um deles enxerga todos os participantes de todos os outros.

É essa a característica que torna o modelo poderoso. Pelas regras do IX.br, o conjunto dos PIX de uma localidade forma uma única matriz de comutação. Um provedor conectado a um PIX na zona sul troca tráfego com uma plataforma de conteúdo conectada a outro PIX na zona oeste como se os dois estivessem no mesmo equipamento. O participante pode inclusive estar em mais de um PIX da mesma cidade, para ter redundância. O que não é permitido é usar o IX.br como rede de transporte particular, trocando tráfego entre duas portas da mesma rede.

Do ponto de vista técnico, segundo Salvador, não há diferença prática entre se conectar a um PIX central ou a um remoto. A diferença costuma ser comercial. Cada empresa que hospeda um PIX define as próprias regras e preços para a ligação física, e o NIC.br não interfere nisso. Em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Fortaleza, o próprio IX.br também cobra pela participação. Nas demais localidades, a porta no IX.br não tem custo para o participante.

Dentro de um PIX

Ser um PIX é uma parceria. A empresa que hospeda o ponto cede espaço, energia, climatização e conectividade, e fornece um par de fibras ópticas até cada um dos pontos centrais. O NIC.br instala ali seus próprios equipamentos e os opera. O que se exige do parceiro, nas palavras de Salvador, não é nada além das boas práticas de quem presta serviço de infraestrutura de TI: segurança, energia com disponibilidade, ar condicionado de precisão. O problema é que nem todo candidato tem isso.

No Data Center ASAP, o coração do PIX cabe num rack. Ali fica o switch do IX.br, onde se conectam as portas dos participantes, algumas delas já de 100 gigabits por segundo na época da gravação, e de onde saem as fibras que levam o tráfego até os pontos centrais. Como toda a capacidade do PIX precisa passar por aquele único par de fibras, a equipe do NIC.br usa sistemas DWDM, uma técnica que transmite vários feixes de luz de cores diferentes na mesma fibra, cada um carregando seu próprio canal. É como transformar uma estrada de uma pista numa avenida de muitas faixas, sem abrir uma obra sequer.

Um PIX também não pode lotar. O NIC.br acompanha a ocupação das portas e a vazão das fibras de cada ponto remoto e, quando o uso chega a algo entre 70% e 80%, trata de ampliar: acrescenta equipamentos ou troca os existentes por outros de maior porte. Há ainda um detalhe pouco conhecido. Conectado ao PIX, como se fosse mais um participante, fica um servidor de medição desenvolvido por uma equipe do NIC.br. Quando um provedor reclama de instabilidade, essa máquina permite verificar se o problema está na estrutura do IX.br ou na conexão do próprio provedor.

A ligação de cada participante passa por um lugar com nome curioso: a meet-me room, ou sala de encontro. É o ambiente do data center onde convergem todas as conexões, para que ninguém precise passar cabos de um rack a outro. Cada rack tem um espelho dentro dessa sala, inclusive o do IX.br, e a ligação entre o roteador do provedor e a porta do IX.br é feita ali, por um cordão óptico, o chamado cross-connect.

Quem Pode Entrar

Ser provedor não basta para entrar no IX.br. É preciso ser um Sistema Autônomo, ou AS: uma rede com política de roteamento própria, identificada por um número único, o ASN, e com seus próprios blocos de endereços IP. No Brasil, quem distribui esses recursos é o Registro.br. Salvador lembra que os endereços IPv4 se esgotaram e que o IPv6 é obrigatório para quem obtém um ASN novo, o que tornou o processo mais simples: endereço IPv6 não falta.

A maioria dos participantes é formada por provedores de acesso, mas eles são só uma das pontas. Do outro lado estão as plataformas de conteúdo e as redes de distribuição de conteúdo, e também órgãos de governo, como os que distribuem o programa da declaração do Imposto de Renda. Para o IX.br, explica Salvador, tanto faz se o participante consome ou fornece conteúdo: são partes complementares, e o IX é o meio onde elas se encontram.

O IX Não Substitui o Link

Há uma frase de Salvador que todo provedor deveria guardar: a equipe do IX.br não gosta de dizer que o IX serve para economizar. O IX.br não garante que todo destino estará sempre disponível por ali, e a conexão de um participante pode ficar indisponível em algum momento. Por isso a recomendação é tratar o IX como uma alternativa de conexão, que melhora a qualidade percebida pelo assinante enquanto está ativa, e nunca como o único caminho para a internet.

O provedor continua precisando de um link dedicado para alcançar 100% da internet. A economia aparece quando ele aprende a administrar o tráfego, enviando pelo IX o que pode ir pelo IX e pelo link o resto, sem trocar qualidade por preço. As diferenças entre esses modelos, e onde entram o peering e as conexões privadas, estão explicadas em Trânsito IP, IX, Peering e PNI: Tudo o que Você Precisa Saber para Escalar Sua Rede.

O Passo a Passo da Adesão

No vídeo curto que a ASAP publicou sobre o tema, Fausto Morales, CEO da empresa, resume o começo do processo em uma frase: entrar no site do IX.br, encontrar o PIX mais próximo e falar com o comercial dele. O caminho completo, de acordo com a documentação do IX.br, tem estas etapas:

  • Ter um ASN: a numeração própria é obtida no Registro.br. Sem ela, não há adesão a nenhum ponto de troca.
  • Escolher o PIX: a página de adesão de cada localidade, em ix.br/adesao, lista os PIX disponíveis com os contatos comerciais. Também é possível entrar por uma porta compartilhada, contratada de um participante já ativo, modalidade que o IX.br chama de CIX.
  • Negociar a ligação física: o enlace até o PIX ou o cross-connect dentro dele é combinado diretamente com a empresa que hospeda o ponto, sem participação do NIC.br.
  • Pedir a ativação: no portal meu.ix.br, com um usuário vinculado ao ASN, o provedor abre a solicitação de nova ligação. O IX.br pede a assinatura de um contrato e o cumprimento de requisitos técnicos.
  • Configurar e testar: o IX.br informa a porta e a posição no distribuidor óptico, aloca as VLANs e os endereços para as sessões BGP e coloca a conexão em quarentena, uma fase de testes do enlace e da configuração, antes de levá-la para a rede de produção.

Em um processo normal, a ativação leva de 30 a 45 dias, mas pode chegar a alguns meses. Por isso o próprio IX.br faz um alerta: cuidado para não deixar o enlace ou o cross-connect ativo e sendo cobrado antes de a ativação terminar. Entre os requisitos técnicos, o transporte até o roteador precisa suportar MTU de 1.500 bytes e, em São Paulo, aprender pelo menos 4.096 endereços MAC por VLAN.

O PIX ASAP

Na lista oficial de adesão do IX.br São Paulo, entre os pontos disponíveis na cidade, está o PIX ASAP, na Avenida das Nações Unidas, em Jurubatuba, na zona sul. A localização não foi por acaso. Fausto conta que a escolha foi deliberada: a região da Berrini, onde nasceu o ponto central original, concentra boa parte dos PIX, e um ponto mais ao sul aproxima o IX.br dos provedores dessa região. Assim, eles não precisam investir num backbone próprio até os pontos mais centrais, e a cidade ganha menos cabos atravessando ruas.

Para um provedor, há mais de um caminho até o IX.br pela ASAP:

  • Porta exclusiva no PIX ASAP: o provedor instala o roteador no data center, em colocation, e se liga ao switch do IX.br pela meet-me room. O espaço vai de 1U, a menor unidade de altura de um rack, até racks inteiros dedicados; há provedores no Data Center ASAP com três racks só para eles.
  • Fibra da rua até o PIX: sem colocation, o provedor leva a própria fibra até as caixas de emenda subterrâneas da ASAP, que são independentes umas das outras, e a estrutura da ASAP traz essa fibra até a meet-me room, onde é feito o cross-connect com o IX.br. Aqui é preciso atenção à distância, porque o sinal óptico tem limite de alcance.
  • Porta compartilhada (CIX) nos POPs: para o provedor que não vai até o Data Center ASAP, a ASAP leva o tráfego do IX.br até seus POPs na Grande São Paulo, por porta compartilhada, e o provedor participa do IX.br com o próprio ASN.
  • Para quem já está no IX.br: basta fazer peering com a ASAP, o AS264144, ou receber o link dedicado da ASAP por VLAN bilateral no próprio IX.br, sem fibra nova.

Ser um PIX, nas palavras de Fausto, era um sonho antigo que se concretizou, e também uma forma de mostrar que participar do IX.br não exige "um caminhão de dinheiro". A interconexão está disponível para todo mundo, do provedor com três racks ao que tem uma única fibra chegando pela rua.

O Próximo Recorde

O recorde de junho de 2026 superou outro marco, o de 50 Tbps, que o IX.br havia ultrapassado em março do mesmo ano. Em 2023, quando o vídeo foi gravado, Salvador lembrava que a equipe já tinha comemorado a marca de 100 gigabits por segundo de tráfego agregado, e que naquele momento o total passava de 20 terabits. A curva só aponta para cima, e cada nova plataforma de vídeo, jogo online ou serviço de inteligência artificial empurra mais tráfego para dentro dessas salas.

Para o provedor, a lição é que a internet de qualidade não depende só do tamanho do link, mas também de onde ele troca tráfego. E o NIC.br oferece formação para quem quer começar: cursos e eventos como o IX Fórum, na maioria gratuitos e realizados em várias regiões do país, sobre boas práticas, roteamento e IPv6.

Os vídeos que deram origem a este artigo estão no canal da ASAP Telecom no YouTube: Como funciona um PIX do IX.br? e o vídeo curto Você, provedor de internet, sabe o que é IX?. Para conhecer as formas de conexão ao IX.br pela ASAP, veja o guia CIX: Acesso ao IX.br ou a página Para Provedores.

Quer aplicar isso na sua operação? Peça uma proposta à pré-venda da ASAP.